Sobre quando o tempo parou

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Ainda era de manhã quando chegamos lá, mas parecia fim de tarde. Exaustos da viagem, tudo parecia levar uma eternidade para se realizar, a fome apertando a cada segundo, parecia que eu explodiria de tanta raiva, de tanta dor, tanta frustração… Mas quando forrei o estômago, voltei a respirar e foi como se eu tivesse nascido de novo. Estar naquele lugar, em contato com a natureza, me fez mais sensível, mas suscetível a qualquer tipo de situação. Fez-me mais vulnerável. Talvez eu já estivesse com um pouco de tudo isso dentro de mim, a vida não estava sendo fácil e na cidade grande eu estava sufocando, parecia que explodiria a qualquer momento. Mas quando se desliga do mundo, o mundo parece parar de girar e nada mais importa, a tecnologia torna-se tão irrelevante, tão inútil, a não ser é claro quando se quer registrar momentos, ela torna-se imprescindível, mas existem momentos que não podem ser registrados, eles ficam gravados na memória, tudo isso porque contiveram um cheiro ou uma cor, que foto algum poderia definir. Fizeram nos sentir tudo o que uma fotografia não poderia transmitir. A escuridão silenciosa, o rio barulhento, a água gelada e grama molhada, a sensação de não estar só, mesmo quando se está. O amor, pela vida. Pelas coisas, por si próprio, pelo próximo.

Saí de lá com o desejo de transformar horas em dias, tristeza em vida, ódio em amor. A contemplação da natureza é muito mais do que sentar em um banco e olhar o nada ou o horizonte. Contemplar a natureza implica em observar cuidadosamente, tudo o que ela pode te oferecer. Os cheiros, os sons, as cores, os sorrisos, o dia demorado e a noite solitária. Estar na natureza e querer ficar dentro de uma barraca ouvindo o barulho do rio, transformar-se em barulho de chuva, é muito mais que reclusão, é reflexão. É a certeza de que nem tudo é o que parece, de que sua mente pode te enganar, a certeza de estar só e ao mesmo tempo acompanhada, a certeza da compreensão e fundamentalmente a aceitação, de que para ser feliz, não preciso de ninguém que me complete, mas sim, alguém que me complemente, porque a felicidade não é metade, a felicidade é inteira e ela só vem, quando se chega pra somar, pra ficar. Todo mundo acredita saber o que é melhor para si, mas quando se trata do que é melhor para os outros, aí as pessoas tem certeza, mas essa certeza é uma ilusão, se você não sabe o que é melhor para você, como pode saber o que é bom pra mim? Se somos tão diferentes, como pode a mesma coisa nos fazer felizes? Estar em contato com a natureza significa muito mais do que contemplá-la, significa descansar, significa estar em paz.